Falhas na integração entre serviços e demora na realização de biópsias prolongam o tempo até a confirmação diagnóstica e impactam o início do tratamento.
A detecção de uma alteração suspeita na mamografia é apenas o primeiro passo no caminho até o tratamento do câncer de mama, expõe Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, médico especialista em diagnóstico . Entre o exame inicial e a confirmação diagnóstica por biópsia, muitas pacientes enfrentam um percurso marcado por novos agendamentos, deslocamentos e períodos de espera que podem se estender por semanas ou meses.
Esse intervalo é crítico, pois o tempo até o diagnóstico definitivo influencia diretamente o estágio da doença no início do tratamento. Os gargalos nessa etapa comprometem a principal finalidade do rastreamento, que é permitir intervenções precoces e menos agressivas.
A biópsia como etapa decisiva do diagnóstico
A biópsia é o procedimento que permite confirmar se uma lesão é benigna ou maligna e definir características fundamentais do tumor, como tipo e agressividade. Sem esse exame, não é possível planejar adequadamente o tratamento oncológico, ressalta Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues.

Do exame à biópsia, Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues analisa os entraves que atrasam o tratamento do câncer de mama.
A agilidade na realização da biópsia é tão importante quanto a qualidade da mamografia. Quando há demora nessa etapa, perde-se parte do benefício do rastreamento, pois a paciente permanece em incerteza clínica e emocional, enquanto a doença pode evoluir. Para além disso, atrasos sucessivos tendem a gerar abandono do seguimento em alguns casos, especialmente quando a paciente encontra dificuldades logísticas e financeiras para cumprir todos os encaminhamentos.
Falta de integração entre diagnóstico e tratamento
Um dos principais entraves está na fragmentação dos serviços. Muitas vezes, a unidade que realiza a mamografia não é a mesma que oferece ultrassonografia complementar, biópsia ou atendimento especializado, exigindo que a paciente percorra diferentes pontos da rede.
A ausência de fluxos integrados dificulta o acompanhamento dos casos suspeitos e aumenta o risco de perda de seguimento. Sem sistemas que conectem resultados e encaminhamentos, o sistema depende excessivamente da iniciativa da própria paciente para dar continuidade à investigação.
Esse modelo reduz a eficiência do rastreamento e amplia desigualdades, pois mulheres com menor acesso à informação e recursos tendem a enfrentar mais obstáculos neste percurso.
Capacidade limitada e filas para procedimentos invasivos
A realização de biópsias exige infraestrutura específica, profissionais treinados e disponibilidade de materiais, o que nem sempre está presente em quantidade suficiente na rede pública. Isso cria filas para procedimentos que deveriam ser prioritários.
Tal como explica Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, mesmo quando a mamografia identifica uma lesão suspeita, a demora para agendar a biópsia pode ultrapassar prazos considerados aceitáveis para um diagnóstico oncológico oportuno. Esse atraso compromete a estratégia de detecção precoce.
Em alguns casos, a paciente acaba recorrendo ao setor privado para acelerar a investigação, o que evidencia desigualdades de acesso e cria um sistema de duas velocidades para confirmação diagnóstica.
Impacto emocional da espera pelo diagnóstico
Além das consequências clínicas, a espera pela biópsia e pelo resultado do exame tem forte impacto psicológico. A incerteza prolongada gera ansiedade, medo e dificuldade de manter a rotina, afetando a qualidade de vida da paciente e de sua família.
Na avaliação de Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, esse sofrimento poderia ser reduzido com fluxos mais rápidos e previsíveis, que ofereçam prazos claros e acompanhamento ativo dos casos suspeitos. A previsibilidade do processo é um fator importante de cuidado em saúde. Quando a paciente não sabe quando conseguirá concluir a investigação, a sensação de desamparo tende a se intensificar, mesmo antes de qualquer confirmação de diagnóstico.
Possíveis caminhos para reduzir os gargalos
Especialistas defendem que a solução passa por integração de serviços, priorização de casos suspeitos e uso de sistemas de informação que permitam acompanhar cada etapa do percurso diagnóstico. Modelos nos quais a paciente já sai da mamografia com encaminhamento direto para exames complementares tendem a reduzir perdas no processo.
Segundo Vinicius Tadeu Sattin Rodrigues, protocolos que definem prazos máximos para realização de biópsias e início do tratamento são fundamentais para transformar o rastreamento em política realmente efetiva. Além disso, ampliar a oferta de procedimentos invasivos em regiões com maior demanda é parte essencial do planejamento.
A articulação entre diagnóstico por imagem, patologia e oncologia também é apontada como condição básica para reduzir atrasos e melhorar a coordenação do cuidado.
Encerramento analítico
O caminho entre a identificação de uma lesão suspeita e a confirmação do diagnóstico por biópsia é um dos pontos mais sensíveis do rastreamento do câncer de mama. Quando esse percurso é marcado por atrasos e fragmentação, perde-se parte significativa do potencial de salvar vidas por meio da detecção precoce.
Enfrentar esses entraves exige integração da rede, definição de prazos e acompanhamento ativo das pacientes com exames alterados. Sem essas medidas, o rastreamento corre o risco de se tornar um processo incompleto, incapaz de garantir que a detecção inicial se converta em tratamento oportuno.
Autor: Staux Umeran










