De assistentes virtuais a câmeras térmicas, tecnologia reduz tempo de treinamento e aumenta segurança no maior polo de celulose do país
Três Lagoas não é conhecida apenas pelas chaminés e pelos números recordes de exportação de celulose. Por trás da produção que torna a cidade referência mundial no setor, existe uma estrutura tecnológica que poucos moradores enxergam no dia a dia, mas que já mudou a forma como as fábricas funcionam. A unidade da Suzano na cidade, uma das maiores e mais modernas do mundo no segmento, vem incorporando ferramentas de inteligência artificial generativa, sensores preditivos e realidade virtual para tornar a operação mais eficiente e segura.
O caso mais emblemático é o da Ana Maria, solução de IA desenvolvida em parceria com a Microsoft, que combina o Microsoft Azure OpenAI Service com o Microsoft Teams para dar suporte às equipes de operação e engenharia da fábrica. A ferramenta auxilia especificamente o trabalho ligado ao digestor, equipamento considerado o coração do processo de produção, responsável por cozinhar o cavaco de madeira sob altas temperaturas e pressão para separar as fibras que mais tarde se transformam em celulose e papel.
Entender como essa tecnologia funciona na prática, e o que ela representa para o futuro do trabalho no maior polo industrial de Mato Grosso do Sul, ajuda a explicar por que Três Lagoas tem despertado interesse além das fronteiras do setor de celulose, atraindo olhares também do campo da inovação e da automação industrial.
O que a inteligência artificial já faz dentro das fábricas
A Ana Maria começou a operar em junho de 2023 e, segundo a Suzano, trouxe resultados expressivos já nos primeiros meses. A empresa conseguiu reduzir em 15 horas o tempo necessário para treinar novos profissionais no processo de cozimento da celulose, além de aumentar a produtividade e a precisão na identificação de problemas, graças ao suporte em tempo real oferecido pela ferramenta. Na prática, um simples comando enviado pelo chat do Teams permite que o trabalhador acesse informações e análises que antes exigiam consulta a manuais extensos ou apoio direto de colegas mais experientes.
A unidade de Três Lagoas conta ainda com outras duas frentes tecnológicas batizadas de Sala Siga e Sala Conecta. A primeira é responsável pelo monitoramento do funcionamento de máquinas por meio de robôs, que geram dados sobre a operação fabril e liberam a equipe humana para se dedicar à análise dessas informações. Já a Sala Conecta concentra o desenvolvimento de soluções de inteligência artificial em formato de software, criadas a partir das necessidades específicas levantadas pelos próprios técnicos que atuam no chão de fábrica.
Entre as ferramentas já incorporadas à rotina industrial estão a Aspen Mtell, sistema de análise preditiva que identifica falhas em equipamentos antes que elas aconteçam, e a Odin Bosch Rexroth, que utiliza sensores de vibração para monitorar em tempo real a condição de máquinas e antecipar necessidades de manutenção. A unidade também conta com câmeras termográficas instaladas em pontos estratégicos, que detectam variações de temperatura nos equipamentos e ajudam a identificar anomalias antes que se tornem problemas maiores, contribuindo tanto para a segurança dos trabalhadores quanto para a eficiência energética da planta.
Da fábrica para a cidade: tecnologia também chega à gestão pública
O interesse por inteligência artificial em Três Lagoas não fica restrito ao ambiente industrial. O prefeito Cassiano Maia se reuniu recentemente em São Paulo com representantes da startup Intelicity para conhecer um sistema de inteligência artificial voltado à organização da infraestrutura urbana, tecnologia já utilizada na capital paulista e que agora é avaliada para possível implementação no município. O encontro reuniu também a primeira-dama Kelly Abonízio e secretários municipais ligados às áreas de governo e de infraestrutura, transporte e trânsito.
A proposta apresentada tem como objetivo aprimorar a atuação da Secretaria Municipal de Infraestrutura, Transporte e Trânsito (Seintra), usando dados e automação para tornar a gestão da cidade mais eficiente, em um modelo semelhante ao que já funciona em grandes centros urbanos. Caso avance, a iniciativa colocaria Três Lagoas entre os municípios do interior que começam a testar soluções de inteligência artificial aplicadas diretamente à administração pública, e não apenas ao ambiente corporativo.
Esse movimento conjunto, entre indústria e prefeitura, sinaliza uma tendência que tende a se intensificar nos próximos anos. As empresas instaladas na cidade já vinham investindo em treinamento por realidade virtual, com óculos 3D que reproduzem situações específicas do ambiente fabril para qualificar equipes com mais segurança, antes mesmo de elas atuarem com os equipamentos reais. A combinação entre automação industrial avançada e interesse da gestão pública por ferramentas semelhantes mostra que Três Lagoas, conhecida historicamente pela força da celulose, começa também a se posicionar como um laboratório prático de aplicação de inteligência artificial fora dos grandes centros tecnológicos do país, acompanhando uma transformação que já é realidade em outras unidades industriais do Brasil e do mundo.
Fontes: Suzano, Portal Celulose, RCN67, g1.globo.com/ms
Autor: Diego Rodríguez Velázquez










