Na análise do engenheiro e fundador da Versa Engenharia Ambiental, Odair José Mannrich, o resíduo da construção civil, conhecido como RCC, expõe uma contradição das grandes obras: o mesmo canteiro que paga para descartar entulho compra areia e brita de pedreiras. Os dados mais recentes da Abrema apontam cerca de 45 milhões de toneladas de resíduos de construção e demolição em 2022. Pesquisa da Abrecon indica que só cerca de 16% dos resíduos da construção civil foram reciclados em 2019/2020. A tecnologia para transformar parte desse volume em agregado já existe e cabe dentro da obra.
O que compõe o RCC e por que separá-lo?
O RCC reúne sobretudo concreto, argamassa, tijolos, telhas e material de demolição, com frações menores de madeira, metal, plástico e gesso. A Resolução Conama 307 organiza esses materiais em classes. A Classe A, formada por resíduos minerais, é a que pode virar agregado, enquanto as demais seguem para reciclagem específica ou destinação controlada.
A separação na origem define a qualidade do produto final. Assim sendo, o gesso é o contaminante mais crítico, porque os sulfatos reagem com o cimento e provocam expansão no concreto ou na argamassa feitos com o agregado. Odair José Mannrich aponta que caçambas identificadas por tipo de material e equipes treinadas resolvem a maior parte do problema antes que o entulho chegue ao britador.
Britagem móvel dentro do canteiro
Plantas móveis de britagem combinam alimentador, britador de mandíbula ou de impacto, peneiras vibratórias e correias transportadoras. O concreto e a alvenaria entram em blocos e saem classificados por tamanho de grão: areia reciclada, pedrisco, brita e bica corrida, que é uma mistura sem separação granulométrica usada em bases.
A mobilidade é o diferencial em relação às usinas fixas de reciclagem. Em obras extensas, como rodovias ou grandes demolições, o equipamento acompanha as frentes de trabalho e processa o resíduo perto de onde ele surge. O agregado volta à própria obra sem viagens de caminhão até bota-foras ou fornecedores.

Odair José Mannrich
Onde o agregado reciclado pode ser aplicado?
A norma ABNT NBR 15116 estabelece os requisitos para o uso de agregados reciclados em pavimentação e em concreto. Como indica Odair José Mannrich, a aplicação de maior volume costuma estar em bases e sub-bases de pavimentos, reforço de subleito, acessos internos e camadas de regularização. Nesses usos, o material substitui a brita de pedreira com desempenho adequado.
No concreto, o cuidado é maior. O agregado reciclado absorve mais água e tem densidade menor que o natural, por causa da argamassa que fica aderida aos grãos. Por isso, a substituição exige ensaios de dosagem, e o uso mais seguro está em peças sem função estrutural, como calçadas, meios-fios, contrapisos e blocos de vedação.
Quais cuidados a britagem no canteiro exige?
A operação gera ruído e poeira e, em muitos casos, depende de licença ambiental ou de autorização do órgão local. Aspersão de água, enclausuramento de correias e restrição de horário reduzem o incômodo à vizinhança, especialmente em obras urbanas.
O montante também influencia a decisão. Colocar em operação uma usina móvel implica custos fixos, e canteiros pequenos ou com geração dispersa podem não justificar o investimento. Como salienta Odair José Mannrich, é necessário confrontar o volume estimado de entulho com a demanda de agregados da própria obra, porque a vantagem surge quando o material produzido é aproveitado internamente.
Economia circular reduz o custo da obra
A conta da reciclagem no canteiro soma três economias: o frete até o bota-fora, as taxas de disposição e a compra de agregados naturais para usos compatíveis. Em obras de infraestrutura com grandes volumes de escavação e demolição, as três se acumulam ao longo de meses de execução e passam a ter peso real no orçamento.
Há também o ganho regulatório. A Resolução Conama 307 exige que grandes geradores elaborem e implementem o Plano de Gerenciamento de Resíduos da Construção Civil, e a reciclagem no próprio canteiro facilita a comprovação de destinação adequada. Menos extração de areia e brita, por fim, reduz a pressão sobre jazidas e sobre os leitos de rios de onde parte da areia é retirada.










