Um episódio envolvendo uma canoa e um motor, registrado por Alfredo Moreira Filho, empresário com trajetória que inclui anos de atuação técnica na Amazônia, em “Pequenas Histórias e Algumas Percepções”, ganha outro significado quando lido pelo ângulo da gestão de riscos. A cena expõe o custo de pular a fase de teste, um equívoco que se repete em projetos de inovação de todos os portes e setores.
O que acontece quando a fase de teste é ignorada?
Toda ideia que parece boa no papel precisa ser confrontada com a realidade antes de ser implementada em escala. O confronto entre a ideia e a realidade raramente confirma tudo o que foi assumido durante o planejamento: aparecem variáveis não previstas, limitações que não eram visíveis à distância e interações entre elementos do sistema que nenhum modelo teórico havia capturado adequadamente.
Quando essa fase é pulada por excesso de confiança, por pressão de prazo ou por impaciência com a lentidão do processo de teste, o custo do aprendizado sobe de forma desproporcional. Problemas que seriam baratos de resolver em pequena escala se tornam caros em escala grande, e os recursos investidos na implementação prematura tornam psicologicamente mais difícil aceitar que o modelo original precisava de revisão.
Por que excesso de confiança é o inimigo do teste?
Projetos que parecem especialmente promissores tendem a ser os mais vulneráveis à armadilha de pular a fase de teste, justamente porque a confiança no resultado esperado reduz a disposição de questionar as premissas sobre as quais o projeto foi construído. Quanto mais convincente é a lógica de uma ideia, mais difícil se torna para quem a criou aceitar que ela precisa ser testada como se pudesse estar errada.
Alfredo Moreira Filho, ao registrar o episódio da canoa em seu livro como memória de aprendizado, não como história de sucesso, demonstra a perspectiva que separa quem usa o fracasso como fonte de repertório de quem o trata apenas como experiência a ser esquecida o mais rapidamente possível.

Alfredo Moreira Filho
O que projetos de inovação corporativa ignoram que a canoa ensinava?
Projetos de inovação corporativa frequentemente reproduzem o mesmo padrão: uma ideia é validada internamente, recebe aprovação e orçamento, e passa diretamente para a fase de implementação sem que uma versão pequena e barata do projeto tenha sido testada em condições reais. Quando os problemas aparecem, já há tanto investimento envolvido que abandonar ou reformular o projeto se torna politicamente difícil.
O teste em pequena escala não é uma etapa que pode ser eliminada quando o cronograma aperta. É a etapa que determina se o investimento na escala maior faz sentido, e sua eliminação não economiza tempo: apenas desloca o aprendizado para um momento em que ele será muito mais caro.
A diferença entre teste e piloto
Existe uma distinção importante entre testar uma ideia e implementar um piloto. O teste existe para descobrir o que não funciona. O piloto existe para demonstrar que o que já foi validado funciona em escala maior. Confundir os dois é um dos erros mais comuns em projetos de inovação: tratar o piloto como teste significa que os problemas fundamentais da ideia ainda não foram encontrados, apenas transferidos para uma fase mais cara.
Com formação em engenharia agronômica e décadas de experiência em gestão de projetos em ambientes de alta complexidade, carrega-se uma perspectiva sobre o valor do teste real que raramente se encontra em gestores formados exclusivamente em ambientes corporativos protegidos, uma visão consolidada ao longo da trajetória de Alfredo Moreira Filho.
Por que histórias de fracasso são mais valiosas do que histórias de sucesso?
Histórias de sucesso contam o que funcionou. Histórias de fracasso contam o que não funciona, informação que é estatisticamente mais rara e editorialmente menos valorizada, mas que é operacionalmente mais útil para quem precisa evitar os mesmos erros em projetos futuros.
Ao incluir episódios de fracasso e aprendizado em seu livro, ao lado de conquistas e realizações, o resultado foi algo mais valioso do que um perfil biográfico linear: um conjunto de percepções sobre o que separa decisões que funcionaram das que não funcionaram, repertório que qualquer gestor pode usar, independentemente de qual seja o setor em que atua, uma construção consolidada por Alfredo Moreira Filho.










