De acordo com o empresário Wander Aguilera Almeida, intermediador no mercado de grãos, modelos climáticos internacionais apontam probabilidade elevada de formação de um El Niño forte para o próximo ciclo agrícola brasileiro, o que já eleva o grau de incerteza sobre o resultado da próxima safra antes mesmo de o plantio começar. Ele acompanha esse tipo de sinal com atenção redobrada, já que o clima é a variável que mais escapa ao controle de qualquer produtor.
De início, vale entender o mecanismo por trás do fenômeno: o El Niño ocorre quando as águas do Pacífico tropical esquentam acima do normal, alterando padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões do planeta, o Brasil incluído de forma bastante desigual.
Por que esse El Niño preocupa mais que outros?
Diferente de ciclos anteriores, em que uma eventual quebra na produção brasileira foi compensada por safras recordes em outros países produtores, o mercado global de soja entra nesse novo ciclo bem mais ajustado, com menos margem de sobra nos estoques mundiais disponíveis para absorver um choque de oferta.
Sob essa perspectiva, Wander Aguilera Almeida explica que esse detalhe muda tudo: uma quebra relevante na produção nacional, cenário que já aconteceu antes sem grande impacto global, agora tem potencial de afetar os preços internacionais com muito mais força do que em ciclos anteriores, dada a menor capacidade de outros países absorverem essa diferença.
O crescimento da demanda por biocombustíveis também reduz a folga do balanço global, já que mais óleo de soja está sendo consumido justamente no momento em que a oferta pode ficar mais apertada por causa do clima. Essa combinação de fatores torna o mercado mais sensível a qualquer notícia relacionada à quebra de safra em regiões produtoras-chave.
Onde o risco climático se concentra
O padrão histórico do El Niño tende a favorecer chuvas acima da média no Sul do país, beneficiando a produção de soja e milho no Rio Grande do Sul e estados vizinhos durante a primavera e o verão, pontua Wander Aguilera Almeida.

Wander Aguilera Almeida
O problema está nas demais regiões: Centro-Oeste, MATOPIBA e partes do Nordeste concentram maior risco de precipitação abaixo da média e temperaturas elevadas, justamente onde está concentrada a maior parte da produção nacional de grãos e o maior volume de área plantada.
Esse ganho no Sul, mesmo quando se confirma, tende a compensar apenas parcialmente eventuais perdas nos grandes polos produtores do Cerrado, sem resolver o problema caso o fenômeno se mostre suficientemente intenso naquele ciclo específico.
A segunda safra de milho é a mais vulnerável
O milho de segunda safra, cultivado logo após a colheita da soja, é especialmente sensível a atraso no plantio e a déficit hídrico durante o desenvolvimento da lavoura, cenário típico de anos de El Niño mais intenso, explica Wander Aguilera Almeida.
Essa vulnerabilidade se repete historicamente em anos de El Niño forte, mesmo com os avanços tecnológicos recentes em manejo e variedades mais resistentes disponíveis ao produtor. Sementes desenvolvidas para tolerar estresse hídrico ajudam, mas não eliminam por completo o risco quando a chuva simplesmente não vem na janela certa.
Um atraso na colheita da soja, por si só, já pressiona a janela de plantio do milho safrinha, e um El Niño mais intenso adiciona um risco climático adicional sobre um calendário que já tende a ser apertado.
Planejar diante da incerteza
Diante desse cenário, ferramentas como a trava de preço e o acompanhamento constante do mercado ganham ainda mais relevância, já que a incerteza climática afeta diretamente a decisão sobre quando e como vender a produção daquela safra específica. Fracionar a venda ao longo de diferentes janelas, em vez de apostar tudo em um único momento, também reduz a exposição a uma eventual surpresa climática de última hora.
Para Wander Aguilera Almeida, o essencial não é prever com exatidão o que vai acontecer, mas se preparar para diferentes cenários possíveis, algo que separa quem só reage ao clima de quem realmente planeja em cima dele com antecedência.










