Taiza Tosatt Eleoterio

Uma pessoa que nunca aprendeu a passar um fim de semana consigo mesma, sem companhia ou distrações constantes, pode levar essa dificuldade também à vida afetiva, esperando que o parceiro preencha todo intervalo de silêncio, ausência ou desconforto. O problema não está em desejar proximidade, mas em quando a presença do outro se torna condição quase indispensável ao próprio equilíbrio emocional. A especialista em saúde mental e relações familiares, Taiza Tosatt Eleoterio, compreende a capacidade de estar só como uma dimensão da experiência psíquica que não elimina a necessidade de vínculo, mas permite que a pessoa permaneça conectada consigo enquanto estabelece relações significativas. 

Ao longo da leitura, você vai compreender como essa habilidade se desenvolve, o que ela revela sobre intimidade e de que forma aprender a estar consigo pode transformar a maneira de se relacionar.

Estar só não é o mesmo que solidão ou isolamento

Estar só descreve a possibilidade de permanecer consigo mesmo, sem que a ausência momentânea de outra pessoa seja imediatamente experimentada como vazio. Solidão corresponde a uma experiência subjetiva de desconexão, que pode existir inclusive quando há companhia. Isolamento, por sua vez, diz respeito ao afastamento das relações sociais, podendo ocorrer por escolha, circunstância ou dificuldade de convivência.

A distinção ganha importância porque essas experiências não são necessariamente equivalentes. Taiza Tosatt Eleoterio considera que uma pessoa pode estar fisicamente cercada por familiares, amigos ou parceiros e ainda sentir uma profunda sensação de solidão. Da mesma forma, alguém pode passar algumas horas sozinho, dedicar-se a uma atividade individual e experimentar esse período como descanso, liberdade ou oportunidade de contato consigo.

Três situações ajudam a visualizar melhor essas diferenças:

  • Estar só: envolve conseguir permanecer consigo mesmo sem interpretar automaticamente a ausência de companhia como abandono ou rejeição.
  • Sentir solidão: corresponde a uma experiência de desconexão emocional, que não desaparece necessariamente com a presença física de outras pessoas.
  • Viver isolamento: refere-se ao afastamento dos vínculos sociais, podendo estar associado a circunstâncias externas ou a dificuldades na relação com os outros.

O que significa saber estar só na psicanálise?

Na tradição psicanalítica, a capacidade de estar só está relacionada ao desenvolvimento de recursos internos que permitem à pessoa experimentar a própria companhia sem depender continuamente de estímulos externos. Isso não significa rejeitar o convívio ou transformar autonomia em distanciamento. A possibilidade de permanecer consigo também pode coexistir com o desejo intenso de amar, conversar, compartilhar experiências e construir intimidade.

A leitura de Taiza Tosatt Eleoterio situa essa capacidade dentro de um processo que se desenvolve ao longo da vida. Experiências relacionais suficientemente seguras podem contribuir à construção de uma sensação interna de continuidade, permitindo que a ausência temporária de alguém não seja vivida necessariamente como perda ou ameaça. A pessoa consegue suportar determinado intervalo sem precisar preenchê-lo imediatamente.

Essa dimensão também ajuda a compreender por que estar só pode ser diferente de sentir-se abandonado. Quando existe maior segurança interna, o silêncio não precisa ser interpretado como rejeição e a distância temporária não precisa adquirir significado definitivo. A pessoa continua reconhecendo o vínculo mesmo quando o outro não está fisicamente presente, preservando a relação sem deixar de existir individualmente.

Como a capacidade de estar só aparece na vida a dois?

A maneira como alguém lida com a própria companhia também aparece no relacionamento. Quem consegue permanecer consigo tende a buscar o parceiro pelo prazer da convivência, pela troca e pelo desejo de compartilhar experiências, e não exclusivamente como forma de afastar qualquer sensação de vazio. Isso pode favorecer uma proximidade menos marcada pela urgência e pela necessidade constante de confirmação.

Taiza Tosatt Eleoterio observa que essa diferença se torna perceptível em situações corriqueiras: uma viagem individual, um encontro com amigos, um compromisso profissional ou simplesmente algumas horas destinadas a interesses próprios. Quando existe dificuldade em tolerar a separação temporária, acontecimentos comuns podem adquirir um peso emocional elevado, provocando cobranças ou interpretações que ultrapassam o fato ocorrido.

Relacionamentos também precisam de intervalos. Duas pessoas podem se amar profundamente e, ainda assim, desejar momentos distintos ao longo da semana, manter amizades próprias ou realizar atividades sem a presença do parceiro. A capacidade de estar só oferece sustentação interna justamente nesses espaços, permitindo que a distância física seja compreendida como parte da convivência, e não automaticamente como ameaça ao vínculo.

Estar só e independência significam a mesma coisa?

Independência e capacidade de estar só podem se aproximar em alguns aspectos, mas não são sinônimos. Uma pessoa pode administrar a própria rotina, trabalhar, tomar decisões e resolver questões práticas sem depender de ninguém e, ainda assim, sentir grande desconforto quando fica sem estímulos ou companhia. A autonomia observável, portanto, não revela necessariamente como alguém experimenta a própria presença.

A análise de Taiza Tosatt Eleoterio amplia essa distinção ao deslocar o olhar das competências práticas à experiência subjetiva. Saber organizar a própria vida não significa necessariamente sentir-se confortável com os próprios pensamentos, emoções e silêncios. Algumas pessoas permanecem constantemente ocupadas justamente porque o contato consigo pode despertar sensações que preferem não enfrentar naquele momento.

Compreender essa diferença também modifica a maneira de observar os vínculos afetivos. Uma relação saudável não exige que os parceiros sejam completamente autossuficientes, tampouco que estejam permanentemente juntos. Taiza Tosatt Eleoterio considera que existe maior espaço de liberdade quando cada pessoa consegue sustentar algum contato consigo mesma e, a partir daí, escolher a presença do outro não como preenchimento obrigatório, mas como encontro entre duas subjetividades que também conseguem existir separadamente.

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